Editora baiana reúne Brasil, Colômbia e Moçambique em Coleção poética

Atualizado: Jan 21

A poesia transita em um passeio interior e anterior à palavra. Fosse em Pedras Rúnicas ou monólitos, inserida em garrafas, lançadas ao mar, digitada ou gravada em madeira, lida em biblioteca ou declamada nas ruas, ou recitada como um Rap, a poesia altera paisagens e contextos de onde passa a habitar.


Um conjunto de possibilidades emerge como desafio à leitura de poesia e novidade nas últimas décadas. As redes sociais permitem o acesso de mil caminhos para mundos e mais mundos, conteúdos, interações e links para todos os gostos e #hashtags.


A poesia, entretanto, emerge e submerge nessa estreita relação entre palavras, sintaxes, morfologias, performances e uma necessidade de se inscrever no verbo de sua criatura. Esses enlaces evidenciam poéticas contemporâneas esparramadas em dimensões que borram fronteiras e mares de tradições efêmeras e inevitáveis de tantos Likes e cifras.


Apontar para a edição de livro impresso como uma dessas possibilidades é integrar-se a um ecossistema e seus labirintos gravados em raízes ‘transmodernas’, troncos, folhas de toda árvore nutrida em solo cultural e artístico de onde se traduz aquilo que o filósofo argentino Rodolfo Kusch apontou em El hedor de América. Um sumo, o fedor do humos, singularidades geoculturais, uma chave e uma fechadura, ser e estar untado na vida para lida, não para o fim, para uma próxima página.


O que há na poética de nuestros escritores? O que há de passeio interior em cada título? Chave de um universo entre duas capas. O que Moçambique nos afro-futuriza em sua poesia de escrita índica? O que as Américas evidencia de Nuestra?


A Portuário Atelier Editorial convida à leitura de uma coleção que se inspira na natureza regenerativa e criativa humana. Na diversidade de cada escrita manifestada como poesia, Oriki, arte: fruta amadurecida no silêncio de poetas da Argentina, Brasil, Colômbia e Moçambique. Nuestra América e África literária tecem caminhos e intercâmbios líteroculturais com uma sintaxe que transpira silêncios. Silêncio indicador de uma unidade e fragmentação que une dois continentes e países de línguas ibéricas, e silenciadas.


Um sumo, um hedor, percebido por um passeio interior, untado no corpo, no suor do espaço – tempo, na lida de cada palavra enxuta, estampada pela poesia de João Vanderlei de Moraes Filho, com Batismo à Ordem da Verdade; Rony Bonn, com Privações; Pedro Pereira Lopes, com Mundo blue – Poemas em quarentena; Rómulo Bustos Aguirre, com Sacrificiais, traduzido por Wladimir Cazé. A edição de Passeio Interior reforça a vocação de intercâmbios lítero-culturais da Portuário Atelier Editorial a partir da edição de livros e difusão literária entre Nuestra América e África.


Reforçando sua vocação de intercâmbios lítero-culturais, a Portuário enlaça desta vez a poesia do Brasil, Colômbia e Moçambique, com o lançamento da Coleção Passeio Interior.


Quinta-feira, dia 21 de janeiro, a partir das 15h, escutaremos a leitura e conversaremos com os autores em uma LIVE no perfil da editora no Instagram..

Do Brasil, João Vanderlei de Moraes Filho comparece com seu sexto poemário. Segundo a escritora Lílian Almeida, o livro nos batiza no ofício humano de deixar cair as pétalas ressequidas para reviver primaveras, nos consagra ao sagrado: a transformação mística, espiritual (...).


RELIGARE


Centrado na luz, nas flores,

no passeio interior, no giro

dos planetas, na órbita

dos caminhos. Na magia

dos sinais de chuva e dos raios

de sol desenhados no chão

rumo ao rio. Onde quer que

seja, nado. Nada. Vazio.


Flores Amarelas, Brancas,

Acácias.


Aro,

planto, nado, Acácias Amarelas

rumo ao sol, ao rio, ao mar,

à chuva colhida, ao ar,

às pronúncias inacessíveis

do canto concêntrico do vazio

de si mesmo.


Estio.


...

(p, 29)


Em seu primeiro livro publicado, Rony Bonn, autor de privações é uma das apostas da Portuário. Com um caminho respeitado nas artes visuais, Rony, segundo o poeta Nuno Gonçalves, nos apresenta uma poética seca, direta e atinge diretamente o fígado. Seus poemas são autênticos acarajés de re


alidade. Não é feita pra agradar nem serve de consolo a ninguém. Revolta & beleza mescladas em versos onde nenhuma palavra é excessiva.









IDENTIDADE



É porque você

não repara

a distância que

nos separa

na imagem frente

ao espelho


e na mentira

expressa na fala

mas quando você

se depara com


uma realidade

que não se compara

não há justiça


que se faça querendo

fazer vistas grossas

com a verdade

estampada na cara.

(p. 11)


O leitor de poesia em língua portuguesa terá o prazer de apreciar a poesia de Rómulo Bustos Aguerre, um dos nomes contemporâneos mais importantes e premiados da literatura colombiana. Sacrificiais, traduzido por Wladimir Cazé, é o primeiro livro de Rómulo traduzido para o português. O poeta José Inácio Vieira de Melo considera que sua poética é construída sem pressa, numa espécie de sacerdócio consciente de que, no devido tempo, o verbo se fará presente no altar, embora não saiba qual será seu temperamento, mas já intuindo sua feição.







O ETERNO


O eterno está sempre ocorrendo

ante teus olhos

Vivo e opaco como uma pedra

E tu deves polir essa pedra

até fazer dela um espelho em que possas fitar-te a ti

fitando-a

Mas então o espelho já será água e escapará

entre teus dedos


O eterno está sempre em fuga ante teus olhos.


(p.17)