Rómulo Bustos Aguirre: Um relâmpago de beleza.



A poesia da América do Sul tem pouca circulação no Brasil. O que é lastimável, já que o Brasil é um país sul americano. Poder-se-ia atribuir essa escassez à barreira do idioma, mas não seria uma proposição justa, pois no território brasileiro abundam edições de livros de poetas europeus. Aí voltamos àquela velha discussão de que o Brasil vira as costas para a América hispânica. E por conta dessa falta de diálogo (que de fato existe) é sempre uma grande alegria quando aparece em território brasileiro a publicação de um escritor da América do Sul, ainda mais quando se trata de poesia. E agora, finalmente, temos circulando entre nós um livro do poeta colombiano Rómulo Bustos Aguirre, um dos poetas mais importantes e reconhecidos do mundo hispânico.


Rómulo Bustos é um poeta de uma certa Colômbia que não faz parte do estereótipo difundido mundo afora, que é o da Colômbia andina, amazônida. Rómulo é do caribe colombiano. Nasceu em Santa Catalina de Alejandría, onde viveu até os nove anos, e, em seguida, se mudou para Cartagena das Índias, onde vive. Rómulo não está nas alturas andinas, seu horizonte são as ondas do mar caribenho. Sua poesia alçou voos, alcançando vários países, e agora chega ao Brasil com seu premiado livro Sacrificiais (2004). Antes, em 1996, já havia participado da “Antologia Poética Brasil-Colômbia (Para conocernos mejor)”, uma iniciativa de editores universitários brasileiros e colombianos, que contou com a organização do brasileiro Aguinaldo José Gonçalves e do colombiano Juan Manuel Rocca.

Sacrificiais chega ao território brasileiro pela sensibilidade editorial do poeta João Vanderlei de Moraes Filho, que está à frente da Portuário Atelier Editorial, na cidade de Cachoeira, no recôncavo da Bahia. A tradução ficou por conta de Wladimir Cazé, que fez um trabalho rigoroso, respeitando os meandros de cada idioma, tendo o máximo de atenção para fazer os ajustes necessários, a fim de que permanecessem, na medida do possível, o ritmo e as imagens do texto original.


Com o título bastante instigante, Sacrificiais dá bem a medida da relação de Rómulo com as palavras. Sua poética é construída sem pressa, numa espécie de sacerdócio consciente de que, no devido tempo, o verbo se fará presente no altar, embora não saiba qual será seu temperamento, mas já intuindo sua feição. Neste livro, o poeta invoca e é convocado por animais e por plantas para se fundirem em oferendas aos deuses do espanto, oriundos da infância e que se agigantaram ao longo da sua existência. Sua poética não exibe os matizes e o sotaque do seu lugar, embora no bojo da sua expressão haja uma origem, não um marco qualquer, mas um traço que o particulariza ao mesmo tempo que o universaliza.

Logo de início, nos dois primeiros poemas, “O eterno” e “A escritura invisível”, Rómulo aponta o caminho que segue sua lira, que é a seara metafísica, o insondável percurso de uma escritura invisível que contempla o eterno. E é esse “eterno” que “está sempre ocorrendo ante teus olhos” que inscreve o ser em cada momento que passa e, mesmo passando, paradoxalmente, se pereniza e se estabelece na perpetuidade para, mais uma vez, escorrer entre os dedos, visto que é pedra polida que se transforma em espelho d’água. O eterno é uma “escritura invisível” que “está sempre em fuga ante teus olhos”.


Sacrificiais sonda o mistério com “os sórdidos e cotidianos emblemas da inocência” em busca da oferenda que concentre beleza, em aspecto e substância, para regalar os deuses com o que há de mais terrível e monstruoso. Como nos ensina Rilke, “toda beleza é terrível”. E Aguirre sabe que a inocência é monstruosa.


Nas duas partes em que se divide o livro, o leitor vai encontrar um poeta de grandes possibilidades, que grafa cada verso com elegância e profundidade, mesmo quando se manifesta mais prosaico e coloquial, como em vários poemas da segunda parte.


O certo, é que é um grande feito a tradução e publicação deste poemário de Rómulo Bustos Aguirre em português. E que bom que foi no Brasil. E melhor ainda, na Bahia. Que venham outros livros de outros poetas colombianos e de toda América do Sul. Que venha toda a obra de Rómulo, porque a poesia deste poeta cartageneiro é como o milagre de uma folha que cresce e nos leva a um “estranho lugar aonde não conseguem chegar todas as escadas do mundo”. A poesia de Rómulo Bustos Aguirre é “um relâmpago de beleza”.



José Inácio Vieira de Melo





Confira alguns poemas do poemário Sacrificiais,

do poeta colombiano Rómulo Bustos Aguirre.





O ETERNO O eterno está sempre ocorrendo ante teus olhos Vivo e opaco como uma pedra E tu deves polir essa pedra até fazer dela um espelho em que possas fitar-te a ti fitando-a Mas então o espelho já será água e escapará entre teus dedos O eterno está sempre em fuga ante teus olhos.



A ESCRITURA INVISÍVEL Digo há a escritura invisível: as silenciosas marcas as cicatrizes, as tatuagens que os outros que o outro vai fazendo em ti Há a escritura visível: essa mesma trama invisível te faz dar a volta e vais encontrando os poemas, vais decifrando-os como uma bela e misteriosa colheita que, de /algum modo, crês não merecer E vais encontrando-te Vais decifrando-te Um homem não escreve, é escrito – digo




O CARNICEIRO



O carniceiro faz bem sua tarefa:

raspar o osso, purificá-lo da pútrida

excrescência

Em algum lugar da vida, algo

faz exatamente o contrário: recobre o osso

desperta a obscura floração da carne

A seu estranho modo

o carniceiro também trabalha na ressurreição

dos mortos.




MAMITE



Solitária

como uma assombração na imensidão do pântano

Maneja os toscos apetrechos enquanto fuma

e quem sabe murmura um obscuro canto ou uma prece para seu

/ofício

Mamite, pescadora de caranguejos

Uma sereia que perdeu seu dom

em meio às águas?




ARRAIA-JAMANTA

Por algum divertido acordo os dois rapazes dividiram em duas a arraia-jamanta como se fosse uma folha de papel e agora cada um leva sua parte suspensa na mão Já nada sobra da graça que o animal exibe nos aquários Ondeando, submergindo, elevando-se na água todo o seu corpo como duas estranhas asas Enquanto a oferecem ao longo da praia os dois /rapazes garantem que com ela se prepara um excelente e revigorante cozido As duas partes seguem vivas Às vezes uma delas estremece levemente e adeja como se uma parte reclamasse a outra Ou como se conservasse alguma obscura memória de seu /voo



Tradução: Wladimir Cazé


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